ATMAN
João Penoni

Atman, o "Eu Real". Aquilo que não se identifica com coisa alguma, por isso pode conter tudo o que houver e, da mesma forma, sustentar a poesia contida em qualquer criaçao. As aparências são apenas configurações temporárias, corpos em transição. A estabilidade não existe. Não há heterogeneidade. Toda diferença é pura ilusão. O fotógrafo desmaterializa os corpos, desmaterializa-se, construindo, assim, novas possibilidades de existência. As figuras que ora parecem ascender da paisagem, ora dão a impressão de estarem prestes a desaparecer ou diluir-se borram as fronteiras entre figura e fundo. A câmera registra o que o olho humano não é capaz de vizualizar. Infinitas possibilidades. Formas do acaso. Revela o desejo de ser um só e todos ao mesmo tempo. Atman é o tesão que a tudo movimenta. Estar só, a dois , a três, entre muitos e de repente desaparecer. Camuflar-se nas águas entre as pedras por um ou dois segundos, ou mais, muito mais. Ser humano e não ser coisa alguma. Entidades, vibrações, metamorfoses... Aqui as imagens são registros e testemunhos que fogem do real e buscam a possibilidade de uma nova memória ou uma nova realidade. Onde tudo comparece como singular e efêmera configuração do “mesmo”. Atman, feito de silêncio, anterior a toda aparência de mundo. Mas que torna possível a afirmação de que “o mundo sou eu”.

Bruno Balthazar


Vista da exposição Atman, Foto Rio 2014, Espaço Cultural Sérgio Porto. Foto de Fabian Alvarez.