Beatriz Lemos entrevista João Penoni
por email entre os dias 2 e 5 de junho de 2013



Seus trabalhos são muito marcados pela presença do corpo enquanto matéria. No texto do Manoel, ele cita essa repetição como uma de suas obsessões. Quais seriam para você as simbologias desse corpo tão explorado?


Nos trabalhos mais recentes, como Incorpóreo e Rio do Salto, venho tentando quebrar essa configuração do corpo enquanto matéria opaca. Através do recurso da longa exposição fotográfica, os movimentos que realizo diante da câmera, durante uma captura, resultam numa substituição da presença pela transparência. Podem-se ver vultos e rastros, mas ainda assim, se entende que é um corpo.

Meu interesse nesse tipo de registro é a busca da sensção do corpo em movimento, as vibrações dessa matéria, que são interpretadas pelo dispositivo fotográfico de tal maneira, que nunca poderia ser visualizado, se não fosse pela escrita da luz. Algumas vezes é difícil tentar transpor para palavras aquilo que já está sendo dito em uma outra linguagem, a fotografia.

Nos trabalhos dessa exposição, acho interessante ressaltar algumas dualidades que marcam essa produção: o corpo-matéria tenta a todo momento se desmaterializar no espaço; outras vezes, o corpo, que não emite luz própria, se utiliza de mecanismos artificiais para se configurar na escuridão. Então, quando temos a luz do dia, a figura se desmancha pelo espaço, na tentativa se dissolver ou se integrar a ele, o que não consegue. Quando nas imagens noturnas, a mesma figura, que já estaria invisível, agora quer brilhar e se destacar na paisagem.

Acho que simbolicamente esse corpo tenta uma utopia de harmonia com o entorno, mas ao mesmo tempo um certo desconforto e inadequação a ele. O corpo tenta virar paisagem, mas não consegue, pois é matéria. O corpo tenta virar luz e quase consegue. E é esse prazer da tentativa que move o trabalho.


Como se dá a escolha de suas “paisagens” e como é o processo de simbiose desse corpo-espaço?


No momento em que escolho um enquadramento, um recorte da paisagem para uma foto é como se tivesse construido um cenário para aquela ação. Na série Mangue, por exemplo, escolhi um emaranhado de raízes e troncos, como estrutura para realização de uma performance acrobática. Nos vídeos, o corpo parece deslizar e se contorcer pelas raízes, tentando se encaixar nelas de alguma.

Muitos desses lugares/paisagens que aparecem nos trabalhos foram surpresas encontradas no caminho de viagens. Uma das melhores partes desse processo todo, é justamente encontrá-los. Para a série Nichos, procurava sempre alguma cavidade, fenda, qualquer brecha na paisagem onde o corpo pudesse se encaixar. Quando encontrava, era como se aquele lugar estivesse ali esperando e preparado para o encaixe. É como se a paisagem te abraçasse.

Na série Rio do Salto, feita sob as águas de um rio vermelho, no Parque de Ibitipoca, me utilizei das panelas (buracos perfeitos esculpidos pelo movimento das águas) para os encaixes com o corpo. Era como se o corpo pudesse ter sua casa ali, se alimentasse daquele buraco, de tão perfeito o encaixe. Mas faltava o oxigênio e batia o frio da água gelada.

Essas tentativas de simbiose com a paisagem, ao mesmo tempo que nutrem, energizam e purificam, também mostram uma incapacidade de fazê-la. A fragilidade e a inutilidade do corpo dentro de uma cratera vulcânica ficam muito claras.


Ao falar de Lumens, Manoel, o insere em um grupo de artistas que faz uso da luz como elemento de composição da obra. Gostaria que falasse um pouco desse binômio imediatismo/atração, no qual a obra trava um dialogo com o espectador.


Sempre achei interessante o fato de que muitas pessoas, ao terem contato com esses trabalhos da série Lúmens, vinham me dizer que não tinham ideia de como aquilo era feito. E ficavam surpresos quando eu explicava o processo de realização de um light painting. Na verdade, a luz e seus desenhos são de fato muito atraentes, como fogos de artifícios, luz estroboscópica ou um globo de espelho. Num primeiro momento, o espectador pode pensar que Lúmens se trata apenas de um efeito de luz, uma imagem gerada por algum software que simule rastros de luz. Mas, na verdade, cada desenho, feito com bastões luminosos ao redor do corpo ou usando uma roupa de LEDs piscantes, é resultado de ações diante da câmera fotográfica.

No tríptico Vermelho, por exemplo, as fotos foram realizadas em estúdio totalmente escuro. Em cada mão eu tinha um ponto de luz vermelha. Durante 30 segundos, o tempo estabelecido para a realização de cada foto, eu teria que movimentar minhas mãos ao redor do corpo. Nesse processo fui ganhando um entendimento do movimento com as luzes e seus desenhos. Mas como em cada foto o resultado é surpreendente, da vontade de repetir esse fazer eternamente. Um tipo de mágica acontece na hora da captura da luz e formas inesperadas aparecem. A luz certamente te seduz. Mas é o processo, a surpresa e o acaso que te puxam para um caminho.



Como você insere sua obra no campo das políticas de subjetivação, ou seja, o que te interessa pensar quando o trabalho atinge o outro?


Em um dos meus primeiros exercícios em fotografia, há uns 10 anos atrás, o professor Joaquim Marçal pediu aos alunos que se fotografassem fazendo aquilo que mais gostavam de fazer e que assim estariam realmente se autorretratando. Não tive muitas dúvidas, me pendurei na barra que ficava presa no vão da porta do meu quarto e fiquei de cabeça para baixo. Não lembro se por acaso, mas a foto estava na contraluz e o resultado foi uma silhueta de uma parte do corpo suspensa, enquadrada pela moldura da porta que funcionava como uma caixa de luz. A minha primeira reação, ao ver a imagem surgindo na bandeja com líquido revelador num laboratório à luz vermelha foi de espanto. Como aquilo tinha acontecido?

Esse exercício de me colocar diante da câmera, realizar uma ação durante a captura e depois correr para ver o resultado e me surpreender, vem se repetindo até hoje. Quando me coloco diante da câmera como objeto, me coloco no lugar do outro. Aquele corpo retratado deixa de ser eu, para se tornar um corpo que poderia ser você. Quando o espectador olha para uma imagem de uma cachoeira e, aos poucos, percebe a forma de um corpo atrás do véu de água que quase o cobre por completo, de imediato ele se transporta para aquele lugar e tem a sensação da água caindo sobre seu corpo. – Se ele está ali eu também poderia estar.

Isso me lembra também, uma entrevista da Marina Abramovic, em que ela fala que o individuo é um universo. Quando o artista mais olha para o seu âmago, para as suas questões mais internas, mais ele consegue chegar no outro.