Circuito, de João Penoni.
O que pode um corpo (animado e projetado) no espaço?


Circuito situou o corpo acrobático do artista na superfície concreta da empena de uma casa noturna na Lapa, transformando-a numa espécie de portal para um passeio por diversas áreas do Rio e de outros recantos, guiado por uma figura meio real e meio fantástica. Bem distantes topográfica e esteticamente, as paisagens se revezam entre urbe e natura, numa narrativa circular, também sugerida em seu título, e que é típica das construções mitológicas. Além das metamorfoses da figura, outro dado narrativo é a sua desconstrução ou desvelamento, quando expõe a montagem e a desmontagem das barras para acrobacia, antes e depois de seu parkour imaginário pela cidade. A imagem em movimento também se decompõe e se reconstrói através da interferência quase artesanal sobre as fotografias.

A animação de fotos, segundo Penoni, permite conservar características próprias desse suporte, com efeitos de transição diferentes das séries de fotogramas do vídeo ou do cinema. Em grande parte fiel ao movimento do corpo do artista, os movimentos são entremeados por seus próprios rastros através da longa exposição à luz, no processo minucioso de captação de cada fotografia. De corpo presente no vídeo, em alguns momentos o artista acrobata também reinventa seus próprios movimentos através da combinação fluida de técnicas de vídeo e animação, analógicas e digitais.

Na medida em que era observado de diversos pontos de vista, o quadro do vídeo, seguindo o contorno da empena, pôde também ganhar molduras distintas na paisagem urbana, justaposições, sobreposições, fusões etc- assemblages possíveis somente através de um olhar em trânsito. Imagens capazes de liberar a fabulação, por deslocar esse olhar que pode passar, mesmo que apenas rasante, para um outro mundo-imagem que não o dominante ou utilitário do cotidiano da cidade.

Quando Foucault cita o cinema ou o teatro como exemplos de heterotopias (1), são estes exemplos intermediados por um espaço intervalar e fechado, que cria certas condições (e regras) para a imersão nesse outro “lugar incompatível” com o real, como por exemplo a arquitetura e ambientação das salas escuras. Projeções digitais de vídeo, por sua vez, vem se tornando cada vez mais frequentes nos chamados “espaços públicos”, em meio aos olhares gerais- e desprevenidos- de espectadores em trânsito. Quando se cria esse lugar no espaço heteróclito da cidade, somam-se lugares outros, por novas condições e descondicionamentos.

Numa noite de segunda-feira na Lapa, a projeção da obra de Penoni, ainda que em larga escala, estava mais próxima da calçada e de quem passava por ali. Sem concorrer com outros burburinhos, o vídeo pôde criar um campo de experiências diferente do que seria numa galeria, reunindo não só artistas e atuantes desse circuito, como também equipe da mostra, os ciclistas convidados pelo Passeio Completo, além de transeuntes, trabalhadores da área e moradores de rua, que pararam ali para compartilhar dessa mesma coletividade instantânea. Fora da agenda saturada do fim de semana, Circuito pôde criar um movimento inusitado de encontro. Esse público, ao mesmo tempo esperado e inesperado, reuniu indivíduos e grupos a princípio desconectados, que puderam se tornar visíveis uns para os outros, e estabelecer diálogos, perguntar e manifestar suas impressões sobre o trabalho com o artista e co-espectadores.

As grandes cidades são favoráveis à distração que chamamos de deriva. A deriva é uma técnica do andar sem rumo. Ela se mistura à influência do cenário. Todas as casas são belas. A arquitetura deve se tornar apaixonante. Nós não saberíamos considerar tipos de construção menores. O novo urbanismo é inseparável das transformações econômicas e sociais felizmente inevitáveis. É possível se pensar que as reinvidicações revolucionárias de uma época correspondem à idéia que essa época tem da felicidade. A valorização dos lazeres não é uma brincadeira. Nós insistimos que é preciso se inventar novos jogos”. (2)

Da temporalidade interior (automática) do caminhante urbano até a vivência da temporalidade própria do vídeo, vivia-se uma possível situação de desvio das rotas programadas dos transeuntes, a partir da qual o olhar podia ter uma duração, também compartilhada com o ritmo próprio da cidade. Nesse sentido, Circuito pôde ser experimentado como cápsula de tempo: fluxo de tempo “virtual”, atravessando o fluxo real de toda a trama de movimentos em torno da paisagem.

Tendo o artista realmente vivido suas acrobacias, exposto assim em tantos lugares abertos da cidade, inclusive a praça Marechal Floriano, na Cinelândia, seu trabalho, quando devolveu corpo e paisagem para a cidade na projeção, me fez refletir também sobre a normatização dos corpos em movimento no espaço urbano. Se andamos “retiliniamente”, e de preferência com um rumo e ritmo definidos, estamos, por assim dizer, seguindo uma normalidade no tráfego pedestre. Onde pressupõe-se essa espécie de manual coreográfico social, introjetado nos indivíduos, a dança ou o movimento inusitado e performático entram de imediato no mundo das atrações, onde subentende-se antes de tudo a “proposta” de ser assistido por um espectador (passivo ou “interativo”) - também regra desse manual hipotético, e que pode envolver mais uma vez a concessão das autoridades para que possa ocupar o chamado “espaço público”.

Por outro lado, é interessante observar como essas atuações “espetaculares” do corpo são apropriadas e reinventadas por vários “habitantes cotidianos” do espaço público, a exemplo dos tantos vendedores ambulantes no centro da cidade, no teatro do embate corpo a corpo pela sobrevivência, e outros jogos de cintura do subemprego no Brasil. Outros exemplos interessantes, são as jams de contato e improvisação ao ar livre e a arte do deslocamento dos parkours, que vão fundo na interface corpo-cidade. Quais as possibilidades e limites desses potentes “corpos detournements”, na transgressão dos automatismos dos movimentos humanos pela cidade?



Moana Mayall
VideUrbe
Rio de Janeiro, 2011


____

1 FOUCAULT, Michel. Espacios Diferentes.

2 DEBORD, Guy. in Potlatch, n. 14, novembro 1954




Circuto, Videurbe, Lapa, RJ