João Penoni: Composições


A diretriz interdisciplinar que se consolidou na arte ao longo do Século XX deixou como legado na produção artística atual artistas cujas experimentações visuais se dão a partir de conceitos e técnicas múltiplas buscadas forçosamente fora da escola de arte. Geralmente de caráter multimídia, tal produção forma um cenário que escapa a categorizações estilísticas e se relaciona não apenas com a arte e sua história.

É neste panorama, de fronteiras disciplinares cruzadas e por vezes turvas, que o carioca João Penoni se insere. Artista visual e designer, sua formação começou na escola de artes visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, e complementou-se na faculdade de design gráfico, escolhida conscientemente como alternativa à tradicional Academia de Belas Artes. Enquanto que na escola de artes o ainda estudante aprendeu a expandir as possibilidades das técnicas e desorganizar procedimentos em busca de pesquisa pura, na graduação ele aprendeu a sistematizar e finalizar de modo harmônico as experiências composicionais com a imagem para torná-la obra acabada.

Em paralelo à arte e o design ainda, Penoni sempre praticou - e pratica até hoje - a acrobacia aérea, atividade cuja influência é percebida na importância dada à presença da forma humana, registrada estática ou em movimento, nas obras em fotografia e vídeo.

Embora seu trabalho hoje se apresente essencialmente em suportes processados digitalmente, a trajetória do jovem artista iniciou-se longe da tecnologia maquínica e da imagem corporal que veio a ser sua marca. O primeiro contato com a prática da arte deu-se na pintura de temas abstratos e geométricos, e somente após algum tempo envolvido com esse meio é que rumou para a fotografia na tentativa de desenvolver um pensamento pictórico em outras mídias.

Acreditando que o seu próprio corpo fotografado poderia funcionar como um pincel sobre a película sensível, inicia uma série de experimentos de manipulação analógica da fotografia para desconstruir a imagem até torná-la quase uma abstratação com vestígios antropomorfos. A partir desse momento, a marca autoral do jovem artista emerge em séries de fotos e vídeos nos quais o corpo aparece como elemento que é simultaneamente pilar e acessório das composições, ao mesmo tempo estando integrado e recortado do/no ambiente, seja este construído ou natural.

No entanto, ainda que recorra constantemente à imagem corporal, esta não chega a ser um mote, ao contrário de uma série de artistas contemporâneos cujo tema de reflexão poética é a questão da corporalidade humana e a extensa massa de discursos que se constrói sobre e a partir dela. Partindo para outro caminho, dando pistas de sua graduação em design, João Penoni se coloca como um formalista que valoriza calculadamente a forma dos elementos integrantes de suas composições, tranformando a paisagem e os espaços registrados em suportes indefinidos e extemporâneos, enquanto que o corpo, em sua constante presença, é um objeto anônimo e distante do sujeito narcisista do autor.

Tal modo de aproximação ao corpo, pode ser observado na obra de artistas brasileiros como o paulista Edouard Fraipont e a cearense Waléria Américo e ainda, descontando o comovente tom espectral, na fotografia da italiana Francesca Woodman (1958-1981). Estes, seguem na corrente contrária de um leitmotiv bastante presente na arte atual, que é a tendência de se criar um personagem a partir do auto-retrato - observada especialmente desde as experiências pioneiras da norte-americana Cindy Sherman nos final dos anos 1970.

Ao tecer composições visuais centradas na imagem do corpo, mesmo que distante de uma discussão filosófica-ética-estética acerca do objeto, o artista inevitavelmente se aproxima do signo performático. No entanto, não seria confortável colocar a obra de João Penoni na categoria de arte performativa, posto que, além de não haver uma ação ao vivo para público, conceitualmente não há uma preocupação premente em discutir tal linguagem, notada também na ausência de construções narrativas lineares e de recursos cênicos como cenografia, figurinos ou roteiros, que são elementos definidores da performatividade nas artes visuais quando não há performance presencial.

Mais recentemente, no entanto, João Penoni tem flertado com o risco do fazer ao vivo em atos que ainda são prolongamentos de seus vídeos mais do que propriamente pesquisas à respeito da performance arte e sua linguagem. Nas poucas ações que já realizou, é perceptível que há mais vontade de explorar a visualidade da relação do corpo em movimento com o lugar, do que de discutir signos e produção de significados em tempo real proporcionados pela arte performática.

No que tange às animações em vídeo Volt, Insone e Fóssil, apresentadas no Paço das Artes, é possível localizar as características sobre a produção do artista comentadas até aqui. Tal conjunto ainda revela os seus dois caminhos de construção poética-visual mais usados: um que aponta para certa estética da artificialidade, na qual são valorizadas cores vibrantes e movimentos maquínicos; e outro que se alinha com a pesquisa desenvolvida por Penoni atualmente, na qual explora o contraste entre o corpo e a natureza em diversas paisagens naturais.

A respeito do processo de realização destes vídeos, todos resultam da montagem sequencial de registros fotográficos editados em programas pouco sofisticados e não-específicos para os fins utilizados. Assumidamente experimentais – porém muito bem acabados - os frenéticos Volt e Insone registram a manipulação de lâmpadas fluorescentes pelo próprio artista, sobre e ao redor de seu corpo, num quarto branco. A luz fria e colorida irradiando pela pele e o ambiente impessoal, cria uma atmosfera de artificialidade que sugere sonhos lisérgicos de filmes de ficção.

Já o hipnótico Fóssil, cujo ritmo vagaroso é dado pelo efeito de fade in, teve origem na exploração tátil de cavidades rochosas em algum recanto ecológico do planeta e exprime, na imagem de textura cor-da-pele e mineral da composição, a imensa vontade de comunhão corpo-natureza do artista.

Um outro elemento importante são as trilhas sonoras compostas a partir de ruídos e texturas de sons captados de várias fontes e manipuladas em meio digital, de modo bastante intuitivo e experimental, sem que haja domínio absoluto de técnicas de composição de música. A trilha-ruído, longe de ser um dado narrativo, se mantém distanciada da cena em movimento, colaborando mais para aumentar os seus ares de enigma do que para elucidar o indescifrável enredo.

Embora jovem, chama a atenção na obra de João Penoni a sua autoralidade tão definida, visível já nos primeiros anos de escola de artes visuais. O artista demonstra a constância de um artista-pesquisador maduro, que persevera na busca por novas possibilidades poéticas-visuais, e a sua escolha para um diálogo com a experiente Analivia Cordeiro no Paço das Artes somente atesta todo o seu potencial.

João Penoni mostra-se atento para a harmonia plástica e escapa da superficialidade pela complexidade experimental que aprofunda e sustenta, permintindo que o seu formalismo consiga alcançar bela poesia visual na elaboração de situações fantásticas que levam a lugares situados muito além da imagem. E quando esse tipo de viagem acontece é por que finalmente temos arte.



Daniela Labra
Zonas de Contato 2011
Paço das Artes, São Paulo.



JOÃO PENONI: COMPOSITIONS
Daniela Labra

The interdisciplinary guideline that was consolidated in art throughout the 20th Century left as legacy the current production of visual experimentation, departing from multiple concepts and techniques, forcibly sought outside art school. Often with a multimedia character, these productions form a scene that escapes style categorization and is related not only with art, but also with its history.

João Penoni, from Rio de Janeiro, is inserted in this panorama, of crossed and sometimes fuzzy disciplinary boundaries. Visual artist and designer, his training started at Escola de Artes Visuais do Parque Lage, in Rio de Janeiro, and was complemented at a school of graphic design, a conscious choice as alternative to the traditional Academia de Belas Artes. At art school, as a student, he learned to expand the possibilities of techniques and to disorganize procedures to seek pure research; in his undergraduate studies, he learned to harmonically systematize and finish composition experiences with images in order to turn them into polished works.

Parallel to art and design, Penoni has always practiced – and still does – aerial acrobatics, an activity whose influence may be seen in the importance given to human form presence, with both static and moving recordings, in his photo and video works.

Even though his work today is essentially presented on digitally processed supports, this young artist's trajectory started far from machine technology and body image, which became his mark. His first contact with art practices happened through painting abstract and geometric themes – only after some time of involvement with this medium, the artist moved to photography to try to develop his pictorial thought in other media.

Believing that his own photographed body could act as brush in the sensitive film, he started a series of photo analogical manipulation experiments in order to deconstruct images until they almost became abstractions with anthropomorphic traces. From this moment on, the authorial mark of this young artist emerged in different series of photos and videos in which the body appears simultaneously as pillar and accessory element of composition, at the same time it is integrated and cut out from/in the environment, whether it is constructed or natural.

However, even though he constantly resorts to body image, this cannot be considered as motto to Penoni, contrary to a series of contemporary artists whose theme of poetic reflection is human corporality and the extended mass of discourse which is built from and on it. In another path, giving away evidence of his design training, João Penoni puts himself as a formalist who calculatedly gives importance to the elements integrating his compositions, transforming recorded landscapes and spaces in undefined extemporal supports, while the body, in its constant presence, is an anonymous object, distant from the author's narcissist subject.

That manner of approaching the body may be observed in the work of Brazilian artists such as Edouard Fraipont from São Paulo, and Waléria Américo from Ceará, and, also, putting aside her moving spectral tone, in the photographs of Francesca Woodman (1958-1981), from Italy. They follow the counter current of a leitmotif that is strongly present in current art, which is a tendency to create a character from a self-portrait, particularly observed in the pioneering experiments of Cindy Sherman, from the US, in the late 1970s.

When he weaves visual compositions centered on the body, even though it is far from a philosophical, ethical, and aesthetic discussion, the artist inevitably brings himself closer to a performing sign. However, it would not be comfortable to put the work of João Penoni in the category of performance art as, besides the fact that there is no live action before the audience, conceptually, there is no pressing concern to discuss such language, also noted in the lack of linear narrative constructions and of resources such as set decoration, costumes or scripts, which are defining elements of performance in visual arts when there is no live performance.

Recently, however, João Penoni has been flirting with the risk of doing live acts, more than proper research about performance and its language, which are still extensions of his videos. In the few actions he has accomplished, his will of exploring visuality of the moving body with a place is perceptible, more than discussing signs and production of meaning in real time, as performance art allows.

In regards to video animations Volt, Insone, and Fóssil, presented at Paço das Artes, it is possible to locate the characteristics mentioned here so far about the artist’s production. This set also reveals two paths of poetic-visual construction most used by him: One that points to a certain aesthetics of artificiality, in which bright colors and machine-like movements are highlighted; and another one which is aligned with research currently developed by Penoni, in which he explores contrasts between body and nature in various natural landscapes.

Regarding the process of confection of these videos, all of them are results of sequencial montage of photographic records edited in unsophisticated unidentified software for the utilized ends. Confessedly experimental – even though they are very well finished – frenetic Volt and Insone record manipulation of fluorescent lights by the artist himself, above and around his body, in a white room. The cold colorful light irradiating on his skin and in that impersonal environment create an atmosphere of artificiality suggesting lysergic dreams from fiction movies.

Hypnotic Fóssil, on the other hand, whose slow pace is determined by a fade in effect, originated in tactile exploration of rock cavities in some ecological corner of the world and expresses, through the skin color and mineral-textured images of the composition, the artist’s great wish for body-nature communion.

Another crucial element in the videos are soundtracks composed from noises and sound textures captured from different sources and digitally manipulated, in a highly intuitive and experimental manner, without absolute command of music composition techniques. This soundtrack-noise, far from being narrative data, keeps itself far from the moving scene, adding to it another enigmatic factor, rather than contributing to elucidate the indecipherable plot.

Even though he is young, João Penoni’s work stands out for his definitive authorship, already visible in his first years in visual arts school. The artist demonstrates steadiness of a mature researcher-artist, who perseveres in seeking new visual-poetic possibilities. His choice of dialoging with experienced Analivia Cordeiro at Paço das Artes only attests to his full potential.

João Penoni shows attention to artistic harmony and escapes superficiality through experimental complexities that he deepens and sustains, allowing his formalism to attain beautiful visual poetry in creating fantastic situations that take to us to places located much beyond the image. And when this kind of journey happens, is because we finally have art.


Still do vídeo Fóssil, 2008