Crítica: Analívia Cordeiro e João Penoni: O Corpo é a Mensagem

(ao meu amor)

Duas horas depois do agendado às duas horas, meu dedo toca, com calma, a sua campainha. Ela abre a porta e pergunta o que aconteceu. Eu esperava o eletricista e dormi na rede, mas está tudo bem comigo. Ela ajeita o cabelo muitas vezes, morde a boca, me olha de lado como quem ensaia sair ou me jogar pela janela. O andar é térreo. Ela inicia uma bronca, e eu sento em padmasana sobre o sofá. O abraço que abre peito sobre peito e essa litorânea brisa que o Brasil beija e balança resolvem tudo, e, poucos minutos depois, assistíamos, juntos, ao que, poucos dias depois, estaria exposto em “Liberdade é pouco. O que desejo não tem nome”, minha primeira experiência como curador.
Fade out, fade in, corpo, fade out, fade in.
Duas horas depois do agendado às três horas, meu dedo toca, com pressa, a sua campainha. Ele olha pela sacada do andar de cima e diz que vai abrir. Ele pergunta como estou. Eu estou tenso, estou vindo da minha 3ª reunião de hoje e ainda tenho mais duas. Ele sorri com os olhos, eu seco a testa. Quase piso no fundo infinito, suas mão se tocam na altura do peito, e ele anda como que flutua. Compartilhar o mesmo chão, vislumbrar a mesma confusão e beber da água da mesma garrafa resolvem tudo, e, poucos minutos depois, assistíamos, juntos, ao que, poucos dias depois, estaria exposto em “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.”.
Corta. Corpo. Corta.
É a abertura da exposição. Ela é a primeira a chegar. Eu dou um beijo, ainda carrego sacos de gelo, e ela, em meio a mais de 50 outros trabalhos, pergunta quem fez aquele vídeo exposto em um laptop no canto da sala.
- João Penoni, Analívia Cordeiro.
Ela torce a boca como quem deseja ou planeja. Ele está aqui? Ainda não chegou.
Enquanto ela vai embora, descendo a ladeira de carro, ele chega, subindo a ladeira a pé.
É a abertura da exposição, e já tem mais de mil pessoas dentro da casa. Ele chega acompanhado. Eu dou um beijo, ainda carrego o peso do mundo que não pesa mais do que a mão de uma criança, e ele pergunta quem fez aquele vídeo exposto em uma TV no vão da porta da varanda do quarto.
-Analívia Cordeiro, João Penoni.
Ele sorri com os mesmos olhos com que encara, mais a fundo, o monitor. Ela está aqui? Já foi embora.
Corpo, flash. Corpo, flesh.
Passam 15 dias, e é São Paulo. É a noite de abertura de “Com Afeto, Rio”, Itaim Bibi, minha segunda experiência como curador.
-João, Analívia. Analívia, João.
Prazer. Prazer.
Ela diz adorar o trabalho dele, ele se diz feliz. Ela diz “Vamos fazer algo juntos?”, ele diz “Vamos.”. Eu bebo um gole de uma noite linda.
Analívia não pode imaginar que, em poucos meses, será convidada a participar do projeto Zonas de Contato, pelo qual deveria fazer uma exposição em parceria com um artista mais novo. João não pode imaginar que será o escolhido por ela. Chegada a hora, os dois decidiram por fazer uma mostra que assinalasse os impressionantes paralelos entre suas produções, além de apresentar uma performance em dupla.
Os dois artistas trabalham os próprios corpos desde muito jovens e, exatamente aos seus 18 anos, decidiram começar a transformar suas rotinas diárias de exercícios, treinamentos, ensaios, descobertas, jogos e quebra de limites corporais em imagens. Analívia tem sua origem na prática da dança, e sua carreira neste campo tem passagens das mais gloriosas. João tem sua origem nas artes circenses e, ainda hoje, se dedica diariamente à prática da acrobacia aérea.
É muito interessantemente visível como, mesmo com origens geográficas familiares profissionais e geracionais muito distintas, suas pesquisas individuais geraram resultados tão aproximáveis. Nesta exposição e neste catálogo, podemos ver como os dois artistas trabalharam os mesmos assuntos de maneiras semelhantes com vibrações diferentes, mas com as mesmas intenções.
Ao tratar das trajetórias de movimento do corpo e no espaço, João explora as possibilidades da plataforma fotográfica para, com light paiting, criar intrigantes narrativas em stop motion. É neste mesmo sentido o esforço de Analívia ao utilizar os recursos de sensores de movimentos, de câmera e de edição do vídeo. Os dois acabam por retratar de maneira essencialmente poética, fusões de corpos ou de suas partes, e o espectador é convidado a sentir e interpretar estas imagens criando e completando aquilo que não vê sob o escuro ou sobre o que não está enquadrado.
Os dois artistas apresentam, também, trabalhos resultados de pesquisas e experimentações sobre a pele e possibilidades relativas de movimentações cromáticas. João exibe seu corpo em confusas fusões ou camuflagens que nos remetem a sensações de força, desconforto e energia. Já os trabalhos de Analívia neste campo são plenos em delicadeza e claridade.
A exposição contou, ainda, com duas extremidades da produção de Analívia: o clássico M 3x3 (que já foi muito visto, mas, talvez, nunca seja demais) e o recente VOCÊ (trabalho desenvolvido em parceria e encantamento com o grupo AMUDI de jovens estudantes cientistas da Universidade de São Paulo). Em VOCÊ, o público é convidado a usar um sensor cardíaco que, de acordo com a freqüência de batimentos, determina a coloração de uma imagem formada por enormes pixels que, segundo a artista poderiam remeter à pincelada impressionista, mas que, nesse caso, são, em si, expressões de um corpo que não mente.
Corpo, flesh. Corpo, flash. Flash back.
Os dois estão no atelier-residência de João. Eles conversam sobre elaborar uma performance juntos, e ele faz acrobacias pendurado no tecido. Ela se levanta, toca o tecido, eles se olham e têm uma idéia.
Flash. Corpo, flesh. Corpo, flash.
É a noite de abertura no Paço das Artes. No centro da sala, pende, do teto, um tecido branco que escorre até o chão e esconde uma forma indefinida. Com aquele andar como de quem flutua, como De no dia em que o conheci, João entra em cena vestido de branco e começa a subir pelo tecido. O peso no chão envolvido, antes imóvel, começa a se mexer e, se por um tempo somos ignorantes da origem dele e de seus movimentos, logo entendemos que é Analívia e que, ali, acontece uma conversa. Sem coreografia, diálogo de sensibilidades, real improviso, o toque como linguagem.
Sem se falarem, João não pode saber que o fecho éclair, que deveria manter Analívia envolta pelo tecido, se rompeu minutos antes do início da performance, e ela está, literalmente, segurando as pontas com a boca e a mão direita. Ele, lá de cima, não entende a violência dos movimentos dela, mas o maxilar de Analívia entende bem. Depois de alguns instantes, já saindo do “casulo”, ela puxa o tecido repetidas vezes, de modo que, soltando, quase lança João sobre o público, que, nesse momento, já entende seu estado de testemunha de comunicação.
Black out.
Enquanto caminham, cada um para seu lado, o destino desce o pano, cortando a energia de todo o Paço das Artes.
Parte importante do que aproxima João e Analívia é que eles tratam de “estar vivo” (além de estarem vivos), do experimentar sem cartas nas mangas: nem de baralho, nem de tarô. O improviso e a exposição das fragilidades, das forças e das possibilidades dadas nas conversas e escolhas entre-corpos são linguagem. Suas dobras e protuberâncias (incluindo umbigos, pernas, mãos e olhos que vêem e reviram) são suas falas. A língua todos partilhamos.
-Não sou eu a mensagem, não sou eu o meio. O corpo manda em mim. O corpo é a mensagem.
Seus trabalhos nascem antes de suas reflexões. O corpo fala; fala e faz sentido antes da consciência.
-E o corpo é sempre presente.

Bernardo Mosqueira